Por: Drª Ana Camila de Oliveira, Cirurgiã-Dentista
Quando ouvi pela primeira vez sobre a expedição da ONG Doutores da Amazônia ao Território Indígena Xingu, não hesitei. Para mim, era uma forma de retribuir. Essas comunidades têm acesso limitado a cuidados odontológicos, e poder contribuir representava uma oportunidade real de impacto. Trabalho com soluções da Dentsply Sirona há anos e conheço o potencial dos fluxos de trabalho digitais. Mas essa experiência foi diferente. Não estávamos em uma clínica moderna ou em um ambiente controlado – estávamos levando a odontologia para uma das regiões mais remotas do Brasil. E, ainda assim, fiquei surpresa ao ver que, apesar de todos os obstáculos geográficos e locais, realizamos nossos tratamentos com sucesso. Em quatro dias, nossa equipe atendeu mais de 700 pacientes e realizou mais de 7.600 procedimentos.
A logística foi desafiadora: barcos no lugar de carros, geradores no lugar de tomadas, além do calor e umidade constantes. Ainda assim, graças à tecnologia conectada, pudemos oferecer um nível de cuidado que seria impensável há uma década. Pela primeira vez, usamos o DS Core, a plataforma em nuvem da Dentsply Sirona, para conectar a floresta ao resto do mundo. Escaneamentos intraorais realizados no local foram enviados rapidamente para a nuvem, permitindo que especialistas a milhares de quilômetros de distância revisassem os casos e planejassem restaurações em tempo real. Isso simplificou significativamente a colaboração. Enquanto nossa equipe se concentrava nos atendimentos presenciais, colegas no Canadá e em outras regiões do Brasil puderam oferecer suporte técnico e clínico sem precisar estar fisicamente na Amazônia.
Esse nível de conectividade transforma completamente o acesso aos cuidados. Significa que os pacientes não precisam esperar semanas por um acompanhamento ou viajar centenas de quilômetros para resolver um caso mais complexo. Significa que, na prática diária, podemos tomar decisões mais seguras e ágeis, mesmo em condições adversas. E significa que projetos sociais como esse podem oferecer não apenas cuidados de emergência, mas soluções de qualidade e duradouras, além de dar ao paciente o que mais valorizamos: tempo com esse elemento dental na boca, funcionando adequadamente.
Claro que não foi simples. Instalar equipamentos no meio da floresta exigiu criatividade, paciência e trabalho em equipe. Mas, uma vez que os scanners estavam operando e a conexão ativa, o fluxo de trabalho digital se tornou natural e eficiente. Com a tecnologia certa, a distância deixa de ser uma limitação para cuidados excelentes. O que mais me impressionou, no entanto, foi poder realizar tratamentos endodônticos em pessoas que nunca imaginaram que isso fosse possível. Antes, a realidade era apenas suportar a dor até ela passar ou extrair o dente. Com a ajuda dos materiais, pudemos realizar tratamentos endodônticos em visita única.
Tratei uma mulher indígena reclusa – termo usado para mulheres indígenas que, ao atingir a puberdade, permanecem isoladas em suas malocas (moradias tradicionais) por anos –, um marco para mim como profissional, como mulher e como ser humano. Graças à ação, elas receberam permissão para sair para o tratamento e retornar. Para se ter uma ideia, elas eram fotossensíveis até à luz da lanterna de cabeça que usamos como refletor, devido ao tempo passado sem contato com a luz solar. Não se trata apenas de conveniência. É sobre equidade. É sobre garantir que a geografia não determine quem tem acesso aos cuidados e quem não tem.
Essa experiência também reforçou algo que sempre compartilho com os profissionais que treino: os fluxos de trabalho digitais não são apenas o futuro – são o presente. Eles tornam o planejamento mais rápido, consistente e sustentável. E, quando integrados a plataformas como o DS Core, expandem possibilidades que antes pareciam inalcançáveis.
Restaurar função e estética com precisão e agilidade é o que torna nossa missão possível. Sem a saúde de seu povo, não há floresta. Ao deixar o Xingu, senti orgulho – não só pelo que realizamos, mas pelo que isso representa. Trabalhar na área da saúde e poder levar meus serviços ao meio da floresta amazônica é inestimável. Se conseguimos fazer isso lá, podemos levar saúde bucal para qualquer lugar. E isso significa um futuro em que todo paciente, independentemente de onde viva, tenha acesso aos cuidados que merece.

