Pesquisadores do Instituto de Ciências de Tóquio, no Japão, identificaram uma associação significativa entre a microbiota oral e o desempenho cognitivo em pessoas com esquizofrenia. O estudo indica que uma menor diversidade de bactérias presentes na boca está relacionada a piores resultados em testes cognitivos, sugerindo que o chamado “eixo oral-cérebro” pode ter um papel relevante na doença.
- FORP/USP alcança notas de excelência na avaliação da CAPES
- Conheça os cursos disponíveis na Dental Press no primeiro semestre
A pesquisa analisou amostras de saliva e dados de avaliações cognitivas de 68 pacientes com esquizofrenia e 32 indivíduos saudáveis, utilizados como grupo de controle. Os resultados mostram que os pacientes apresentaram comunidades bacterianas orais menos diversas e desempenho inferior em testes de inteligência e leitura, quando comparados aos voluntários sem o transtorno.
A esquizofrenia é um transtorno mental grave, caracterizado não apenas por alucinações e delírios, mas também por déficits cognitivos persistentes, que podem comprometer de forma significativa a autonomia, a vida social e a capacidade de trabalho dos pacientes. Embora pesquisas anteriores já apontassem a influência de microrganismos do organismo sobre a cognição — com foco predominante na microbiota intestinal —, evidências recentes sugerem que as bactérias da cavidade oral também podem desempenhar um papel importante nesse processo.
O estudo, publicado on-line em 27 de novembro de 2025, na revista Schizophrenia Bulletin, foi liderado pelos pesquisadores Takehiro Tamura, Genichi Sugihara e Hidehiko Takahashi, do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Escola de Pós-Graduação em Ciências Médicas e Dentárias do Science Tokyo, em colaboração com Yujin Ohsugi e Sayaka Katagiri, do Departamento de Biologia Oral da mesma instituição.
Segundo Tamura, “as interações entre o hospedeiro e o microbioma não se limitam ao intestino. Assim como a microbiota intestinal, a microbiota oral também participa dessas interações, e sua importância em condições sistêmicas e neurológicas tem sido cada vez mais reconhecida”.
Para avaliar a função cognitiva, os pesquisadores utilizaram a Escala de Inteligência de Wechsler para Adultos (WAIS) e o Teste Japonês de Leitura para Adultos, sintetizando os resultados no quociente de inteligência total (QI). Já a caracterização da microbiota oral foi realizada por meio da análise genética das amostras de saliva, com sequenciamento do gene 16S rRNA.
A equipe também empregou a ferramenta computacional PICRUSt2, que permite prever as funções metabólicas das comunidades microbianas a partir de seus perfis genéticos. Além disso, foi avaliada a atividade da via da quinurenina, frequentemente utilizada como marcador indireto de inflamação associada à função cerebral.
Os resultados revelaram que, entre os pacientes com esquizofrenia, uma menor diversidade da microbiota oral esteve associada a um QI mais baixo. Também foram observados desequilíbrios em grupos bacterianos importantes, como uma maior proporção de Streptococcus em relação a Prevotella, além de alterações em outros gêneros relevantes. As análises funcionais sugeriram que vias microbianas relacionadas à biossíntese de glicanos, ao metabolismo energético e à produção de cofatores estavam positivamente associadas ao desempenho cognitivo. Já os marcadores da via da quinurenina não demonstraram papel mediador claro nessa relação.
Por se tratar de um estudo transversal, com previsões funcionais baseadas em modelos computacionais, os autores destacam que os achados geram hipóteses para futuras investigações. “Em pessoas com esquizofrenia, a menor diversidade da microbiota oral esteve associada a pior desempenho cognitivo, e determinadas vias funcionais relacionadas ao metabolismo e aos glicanos foram sugeridas como potencialmente envolvidas nessa relação”, explica Tamura.
Segundo os pesquisadores, os resultados reforçam a ideia de que a microbiota oral pode funcionar como uma janela acessível para compreender estados microbianos associados à cognição. O estudo abre novas perspectivas para a investigação dos déficits cognitivos na esquizofrenia e para o desenvolvimento de estratégias de intervenção. “Esta pesquisa oferece uma nova visão sobre o eixo oral-cérebro e estabelece bases para estudos futuros, incluindo intervenções com medidas de higiene oral, além do uso de prebióticos e probióticos”, conclui Tamura.

