O tratamento de uma lesão de cárie nem sempre precisa envolver broca, anestesia e restauração. Em determinadas situações, uma solução aplicada diretamente sobre a região afetada pode interromper a progressão da doença de maneira rápida e praticamente indolor.
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O fluoreto de diamina de prata, conhecido pela sigla SDF, vem ganhando espaço como uma estratégia minimamente invasiva para o controle da cárie, especialmente em crianças pequenas e pacientes para os quais procedimentos restauradores convencionais representam maior dificuldade.
A substância já é utilizada há décadas em diferentes países e acumula evidências sobre sua capacidade de paralisar lesões cavitadas, sobretudo em dentes decíduos.
Um ensaio clínico realizado nos Estados Unidos e liderado por pesquisadores da University of Michigan School of Dentistry acompanhou 830 crianças entre 12 e 71 meses com cárie precoce grave.
Após a aplicação de SDF a 38%, aproximadamente 54% das lesões estavam paralisadas depois de seis meses. No grupo controle, o percentual foi de 22,5%.
O procedimento é relativamente simples. Após o isolamento da região, a solução é aplicada diretamente sobre a lesão com um microaplicador durante poucos segundos. A técnica dispensa a remoção mecânica do tecido cariado naquele momento.
Os resultados reforçam o potencial do produto como ferramenta para o manejo não restaurador da cárie em situações selecionadas.
Uma das principais vantagens do SDF é reduzir a necessidade de cooperação exigida por procedimentos restauradores tradicionais. Por isso, a estratégia pode ser particularmente útil para crianças muito pequenas, pacientes com ansiedade odontológica, pessoas com necessidades especiais, idosos com limitações físicas e indivíduos com dificuldade de acesso ao atendimento.
Em alguns casos pediátricos, a possibilidade de controlar temporariamente a doença também pode contribuir para adiar ou evitar procedimentos que exigiriam sedação ou anestesia geral.
A indicação, porém, depende de avaliação profissional e das características de cada lesão.
E as restaurações?
O SDF não deve ser entendido como substituto universal das restaurações. Seu principal objetivo é interromper ou reduzir a progressão da lesão, e não recuperar a estrutura dentária perdida.
Os dentes tratados precisam continuar sob acompanhamento. Dependendo da evolução clínica, uma restauração ou outra abordagem pode ser necessária posteriormente.
A escolha entre SDF, restauração, selantes ou outras estratégias deve considerar fatores como atividade da doença, risco de cárie, localização da lesão e condições individuais do paciente.
Escurecimento
A alteração estética está entre os principais pontos que precisam ser discutidos antes do tratamento. A dentina cariada que recebe o SDF tende a apresentar escurecimento permanente.
Em dentes posteriores ou em situações nas quais o controle da doença é a principal prioridade, essa característica pode ser mais facilmente aceita. Em regiões anteriores, entretanto, a mudança de cor pode limitar a indicação da técnica.
O uso do SDF representa também uma mudança na maneira de abordar a cárie. Em vez de tratar toda lesão apenas como uma estrutura que precisa ser removida e restaurada, a proposta permite, em situações específicas, controlar biologicamente a doença com menor intervenção sobre o dente.
Para o cirurgião-dentista, a solução amplia as possibilidades de manejo da cárie e pode ser especialmente útil quando idade, comportamento, condições clínicas ou dificuldades de acesso
