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85% dos sites sobre alinhadores têm baixa qualidade

A popularização dos alinhadores transparentes ampliou o interesse dos pacientes por informações sobre esse tipo de tratamento na internet. No entanto, uma pesquisa publicada na Dental Press Journal of Orthodontics indica que grande parte do conteúdo disponibilizado em websites de ortodontistas brasileiros ainda apresenta problemas importantes de qualidade e confiabilidade.

O estudo avaliou 113 websites mantidos por ortodontistas ou clínicas privadas no Brasil. Entre eles, 54,3% foram classificados como de qualidade muito ruim e 30,7% como ruins. Outros 11,5% foram considerados regulares e apenas 3,5% receberam classificação boa. Nenhum dos sites analisados atingiu o nível considerado excelente. Na soma, 85% ficaram entre as duas piores categorias.

A pesquisa foi conduzida por Mohamad Jamal Bark, Gil Guilherme Gasparello, Rosilene Andrea Machado, Tayla Granemann Jede, Matheus Melo Pithon, Isabela Alex Kloss e Orlando Motohiro Tanaka. O trabalho integra a edição volume 31, número 4, da Dental Press Journal of Orthodontics.

Um dos pontos que mais chamaram a atenção dos pesquisadores foi a ausência de informações consideradas essenciais para que o paciente possa compreender as diferentes possibilidades de tratamento.

Em 98,2% dos websites, a descrição dos riscos relacionados à terapia com alinhadores foi classificada como ruim ou muito ruim. Em todos os sites avaliados, a informação sobre as consequências de não realizar o tratamento recebeu uma dessas duas classificações.

As deficiências também apareceram na apresentação de alternativas. Em 84% das páginas, o desempenho foi ruim ou muito ruim quando os pesquisadores avaliaram se havia menção a mais de uma opção de tratamento. No critério relacionado ao suporte à tomada de decisão compartilhada, esse percentual chegou a 92%.

Para os autores, esse tipo de omissão é especialmente relevante porque o consentimento informado pressupõe que o paciente tenha acesso não apenas aos benefícios de um tratamento, mas também a seus riscos, alternativas e incertezas.

A confiabilidade das informações também apresentou resultados baixos.

Em 99,1% dos sites, a identificação das fontes utilizadas foi considerada ruim ou muito ruim. A falta de clareza sobre a data em que o conteúdo foi produzido apareceu em 87,6% dos casos. Já a apresentação das incertezas relacionadas ao tratamento teve desempenho ruim ou muito ruim em 95,6% das páginas.

Na avaliação dos pesquisadores, a ausência dessas informações compromete a capacidade do paciente de verificar a origem, a atualidade e os limites do conteúdo oferecido.

Os websites que tiveram desempenho ruim em um desses aspectos também tendiam a apresentar problemas em outras dimensões. A análise estatística identificou associação entre baixa transparência das fontes, omissão de riscos e menor suporte à tomada de decisão compartilhada.

Como os sites foram avaliados?
A pesquisa utilizou o DISCERN, instrumento desenvolvido para avaliar a qualidade de informações escritas sobre tratamentos de saúde destinadas ao público.

A ferramenta considera aspectos como confiabilidade das fontes, qualidade das informações sobre opções terapêuticas, apresentação de riscos e alternativas e qualidade global do conteúdo. A pontuação utilizada no estudo poderia variar de 15 a 75 pontos.

A busca foi realizada no Google em julho de 2024, a partir do Brasil e em modo anônimo. Os pesquisadores utilizaram os termos “tratamento ortodôntico”, “alinhadores” e “ortodontia”. Inicialmente, foram selecionados 130 websites não patrocinados e, após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 113 permaneceram na análise.

Dois ortodontistas calibrados avaliaram os conteúdos de forma independente. Em casos de discordância, um terceiro profissional foi consultado. A concordância entre os avaliadores foi considerada de boa a excelente.

Marketing
O estudo também chama atenção para uma característica dos websites de profissionais da saúde. Essas páginas podem funcionar simultaneamente como ferramentas de educação do paciente e de divulgação dos serviços oferecidos.

Segundo os autores, essa dupla função cria uma tensão entre a necessidade de fornecer informação clínica equilibrada e o interesse comercial envolvido na apresentação dos tratamentos.

No caso dos alinhadores transparentes, essa discussão ganha importância diante da forte presença do produto em campanhas de marketing direcionadas ao consumidor. Os pesquisadores ressaltam que materiais promocionais podem enfatizar resultados e minimizar contraindicações ou limitações científicas, contribuindo para a criação de expectativas pouco realistas.

O problema não é exclusivo do Brasil. Na discussão do artigo, os autores comparam os achados com pesquisas realizadas no Reino Unido, Estados Unidos e Austrália, que também identificaram deficiências na qualidade das informações disponíveis online sobre tratamentos ortodônticos.

Outro aspecto destacado pelos pesquisadores é o crescimento da utilização de ferramentas de Inteligência Artificial na produção de textos para websites odontológicos.

Segundo o artigo, sistemas capazes de gerar conteúdo podem se basear em informações já disponíveis na internet, incluindo materiais de baixa qualidade ou com viés comercial. Dessa forma, existe o risco de que informações inadequadas sejam reproduzidas e ampliadas em novas páginas.

Os autores defendem que entidades profissionais e órgãos reguladores considerem a criação de parâmetros baseados em evidências para orientar a qualidade das informações odontológicas publicadas na internet.

Limitações
Os próprios pesquisadores destacam que os resultados devem ser interpretados considerando algumas limitações.

A coleta representa um retrato dos websites em julho de 2024 e as páginas podem ter sido atualizadas posteriormente. Além disso, a pesquisa analisou apenas conteúdo textual, sem considerar vídeos ou infográficos que não apresentassem texto complementar.

A busca também foi restrita ao Google e utilizou termos mais próximos da linguagem profissional. Expressões utilizadas pelo público, como “aparelho invisível” ou “aparelho transparente”, não fizeram parte da estratégia adotada.

Mesmo com essas limitações, os autores concluem que a qualidade das informações sobre alinhadores transparentes nos websites avaliados é criticamente baixa. Para os pesquisadores, ortodontistas precisam assumir maior responsabilidade sobre os conteúdos disponibilizados aos pacientes, priorizando informações baseadas em evidências, transparentes e equilibradas.

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